“Levámos as crianças ao Terreiro do Paço e pensavam que estavam noutra cidade”. Amigos do B2M, a sementeira de cultura num bairro pobre da Ajuda
No Bairro 2 de Maio, na Ajuda, a associação Amigos do B2M, nasceu, em 2017, de uma urgência concreta: havia miúdos na rua, sem atividades, sem acompanhamento, sem acesso a experiências culturais. Em nove anos, as sementes estão a dar fruto, mas este é um trabalho que não tem fim.
Fonte: A Mensagem
por Catarina Pires
26.03.2026
Foto: Líbia Florentino
Os murais pintados em torno do pátio que dá para a Casa para Todos, sede da associação Amigos do B2M, aludem à história do bairro e à sua génese. Quando se deu o 25 de Abril de 1974, estava a ser construído na Ajuda, pela Fundação Salazar, um bairro para os funcionários da PIDE, polícia política da ditadura que a revolução acabava de derrubar.
Uma semana depois, a 2 de maio, as casas em construção, a maioria sem portas, nem janelas, nem nada, só paredes, começaram a ser ocupadas por pessoas que viviam em barracas, da Ajuda e de outras zonas carenciadas de Lisboa.
O Bairro 2 de Maio nasceu uma semana depois do 25 de Abril de 1974, quando as casas em construção de um bairro para funcionários da PIDE começaram a ser ocupadas.
Foto: Líbia Florentino
O ciclo de pobreza não foi, no entanto, quebrado e, 51 anos depois, mantém-se quase como fado entre muitas das famílias que aqui vivem, algumas desde esse tempo da fundação.
Sandra Alves, 51 anos, gestora de recursos humanos e presidente dos Amigos do B2M, e Carina Faria, 41, tesoureira e monitora da associação e auxiliar de educação na Voz do Operário da Ajuda, cresceram as duas no bairro, mas só se conheceram em 2016. O encontro foi determinante para a criação dos Amigos do Bairro 2 de Maio.
Sandra Alves, Adriana Alves, Carina Faria e Gonçalo Folgado, quatro elementos da direção dos Amigos do B2M. Foto: Líbia Florentino
Por volta de 2013, Carina, mãe há pouco tempo, começou a olhar com olhos diferentes para os miúdos do bairro que passavam os dias na rua. “Querem jogar à bola, dançar ou partir vidros?”, perguntava-lhes. A resposta nunca era partir vidros, embora partissem alguns.
Então, começou a juntá-los. Levava-os a jogar futsal, a dançar – duas atividades que ela própria tinha feito quando era miúda – e lá andava, “no bairro, para trás e para a frente com um bando de putos atrás”, lembra Sandra Alves, a rir.
“É isso, achei que, se calhar, podia mudar qualquer coisa e em vez de eles andarem a fazer disparates, podiam fazer desporto ou dança, na coletividade onde eu andei e que já não existe, mas que me ensinou muito”, explica Carina. O impulso, diz, veio também da maternidade: “quando se é mãe, ganha-se outra visão”.
Durante alguns anos, este trabalho foi acontecendo de forma espontânea, até que um projeto comunitário mais alargado – ligado à Faculdade de Arquitetura vizinha – trouxe uma primeira organização ao território.
Sandra Alves, presidente executiva dos Amigos do B2M. Foto: Líbia Florentino
Sandra Alves, por seu lado, colaborava com várias iniciativas desenvolvidas no âmbito do programa Bip/Zip, da Câmara Municipal de Lisboa, com o envolvimento da Junta de Freguesia da Ajuda, em que participavam também as crianças e jovens apoiados por Carina.
Quando todos esses projetos terminaram, em 2016, houve um vazio. Mas estava criada uma base: um grupo de miúdos já envolvidos e uma rede de pessoas que não queria deixar cair o que tinha sido construído.
“O que é que fazemos a estes miúdos agora?”
Sandra Alves recorda-se que foi o que pensou. Mulher de não baixar os braços, conhecedora do bairro, das famílias, das histórias, das dinâmicas e das necessidades concretas, decidiu que não fazia sentido parar.
Deu estrutura ao voluntarismo de Carina Faria e transformou-o num projeto, numa associação, numa casa: a Casa para Todos, no rés-do-chão de um dos prédios do bairro. Foi nesse momento que nasceu a associação Amigos do B2M formalizada em abril de 2017.
Os amigos são amigos da Sandra, da sociedade de advogados onde trabalha, da freguesia da Ajuda, do próprio bairro e, muito importante, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, da Locals Approach e da Rede DLBC (Associação para o Desenvolvimento Local de Base Comunitária de Lisboa), como Gonçalo Folgado, fundador e presidente adjunto dos Amigos do B2M.
Hoje, a associação funciona diariamente e acompanha cerca de 70 jovens e crianças por ano, com um núcleo mais regular de cerca de 30 a 35.
Foto: Líbia Florentino
A primeira ação foi garantir que os miúdos teriam um programa de férias ativas naquele ano. Com o apoio de contactos pessoais – a maioria fora dos circuitos institucionais – foi possível garantir o mínimo para manter atividades com as crianças. A partir daí, o projeto foi crescendo, sempre com uma lógica de base comunitária e assente no trabalho voluntário.
Hoje, a associação funciona diariamente e acompanha cerca de 70 jovens e crianças por ano, com um núcleo mais regular de cerca de 30 a 35.
“Ninguém paga nada para estar aqui. E ninguém recebe nada. Somos todos voluntários, temos as nossas profissões e isto é o que fazemos no nosso tempo livre”, explica Sandra. “Nenhum de nós vive disto. Vivemos para isto. É toda uma diferença. E não é altruísmo, é que realmente dá uma alegria imensa quando eles vêm com um teste bom ou quando fazem uma apresentação pública e corre bem. É fantástico poder fazer a diferença na vida deles”, diz, emocionada.
A Amigos do B2M não é uma associação cultural
Se fosse queria dizer que se tinha começado a casa pelo telhado.
O foco é a educação, a promoção de competências e a ocupação construtiva dos tempos livres, é criar equidade e oportunidades, é contrariar o tal fado e quebrar o ciclo de pobreza. E é aí que entra a cultura, que atravessa praticamente todas as atividades, mas não surge como um “produto” no sentido tradicional. Não há uma programação cultural formal nem uma lógica de espetáculo como fim em si mesmo. A cultura aparece integrada nos processos.
Dança, cajóns [instrumento de percussão], música, oficinas criativas, participação em festivais, idas ao teatro ou a museus: tudo isto passou a fazer parte do quotidiano dos miúdos que frequentam a Casa para Todos, muitos dos quais tiveram aqui o primeiro contacto com estas experiências.
A associação junta várias gerações em diversas atividades: dança, cajóns [instrumento de percussão], música, oficinas criativas, participação em festivais, idas ao teatro ou a museus. Foto: Líbia Florentino
“Nas primeiras férias ativas, levámo-los ao Terreiro do Paço e eles pensavam que estavam noutra cidade. Levámo-los a Belém e nunca tinham entrado num monumento. Na nossa freguesia, não conheciam o Palácio nem a história da Real Barraca”, conta Sandra. “E eu pensei: há 30 e tal anos, quando ia com as minhas amigas comprar roupa, dizia que ia a Lisboa. Hoje, estes miúdos continuam a ir a Lisboa? Não pode ser”.
E já não é tanto como era. Ao fim de quase dez anos, há resultados concretos: jovens que prosseguiram estudos, outros que entraram no mercado de trabalho, alguns que regressam para colaborar, outros que já têm cá os filhos.
Por outro lado, há um conjunto de transformações menos quantificáveis: hábitos, expectativas, referências culturais, relação com o espaço e com os outros. O grupo já participou em festivais internacionais de dança, atua regularmente em eventos da freguesia e dinamiza iniciativas em espaços como a Biblioteca de Belém.
Para Gonçalo Folgado, esse é o ponto essencial: “Lançamos uma semente agora para colher frutos daqui a dez anos”.
A escola como porta de entrada (ou de saída)
As sementes estão lançadas. Ao final da tarde, as miúdas e miúdos, mais velhos e mais novos, vão chegando da escola. Ocupam o espaço como o de casa, embora estejam cientes de que hoje há “visitas”. Alguns vêm para as explicações, outros para o treino de futsal, outras para dançar.
Depois de uma breve sondagem, as preferências são claras. As raparigas vêm para a dança, os rapazes para o futsal. As exceções são o Afonso, de 11 anos, que prefere tocar cajón, um instrumento que aprendeu a construir e a tocar num workshop que trouxe música cigana ao bairro, e a irmã Maria Clara, 14, que gosta mais do futsal do que da dança.
São 13 os que apareceram hoje. O Diniz tem 10 anos, o Isaac, 12, o outro Afonso, 16, o Rafael, 16, o Ivan, 18, a Matilde, 16, a Marta, 23, a Jéssica, 7, a Carla, 8 e as mais pequeninas, de 6 anos, são a Maíra e a Esmeralda. Alguns são do tempo da fundação da Casa para Todos

Engenheira alimentar de formação, Adriana Alves é responsável pelas explicações e acompanhamento ao estudo – um dos pilares do projeto. Foto: Líbia Florentino
Neste equilíbrio entre social e cultural, o trabalho de Adriana Alves (que é filha da Sandra) tem um papel central. Engenheira alimentar de formação, é responsável pelas explicações e acompanhamento ao estudo – um dos pilares do projeto.
“Sou a pessoa que os chateia com a escola”, diz, olhando diretamente para os mais preguiçosos.
O acompanhamento é contínuo, do primeiro ciclo ao secundário. Mais do que ajudar nos trabalhos de casa, há um controlo próximo do percurso escolar. Notas, avaliações, faltas – tudo é acompanhado.
A estratégia inclui incentivos claros: quem não tem aproveitamento, não participa em determinadas atividades, como as férias. O impacto foi visível ao longo dos anos.
“Era normal repetir o ano. Deixou de ser”, diz Adriana.
Mas há também um efeito indireto na relação com a cultura. Ao melhorar o desempenho escolar, cria-se interesse por outras experiências. E, ao mesmo tempo, muitas dessas experiências – como a dança, a música ou as saídas culturais – funcionam como motivação para manter os miúdos envolvidos.
Carina é a responsável pelo futsal (está a tirar o curso de treinadora à noite), pela música e pela dança. É ela que faz as coreografias e orienta os ensaios, assessorada por Adriana, que acumula as explicações com as artes visuais e a “produção artística”.
A brigada do reumático também dança
A Ajuda é frequentemente descrita como uma das freguesias com mais coletividades em Lisboa, mas muitas perderam atividade ao longo do tempo. É também nesse contexto que os Amigos do B2M assumem um papel particular: acabam por ser, para crianças, jovens e mais velhos, o mais acessível ponto de encontro e de contacto com práticas culturais.
Os mais velhos chegaram à associação por isso mesmo. Durante e após a pandemia, tornou-se claro que muitos idosos do bairro estavam totalmente isolados. E então, a D. Luísa entrou em campo.
“Chás das cinco”: o que começou como uma atividade pontual transformou-se num núcleo sénior ativo, com participação em atividades culturais: coro, dança, encontros intergeracionais. Fotos: Líbia Florentino
Com perda parcial de visão e afastada do trabalho, mas com pouca vontade de ficar quieta começou a ajudar a trazer pessoas de casa para a associação. “Vai buscá-las, liga-lhes, não deixa ninguém ficar em casa”, conta Sandra.
Assim nasceram os “chás das cinco”. O que começou como uma atividade pontual transformou-se num núcleo sénior ativo, com participação em atividades culturais: coro, dança, encontros intergeracionais.
Para muitas destas pessoas, a associação tornou-se um espaço regular de convívio – e também de expressão. “Venho para me distrair, conviver, sair de casa”, diz uma das participantes.
Pensar o território como cultura
Se a dimensão prática do projeto é evidente no dia a dia, há também uma camada de reflexão mais estrutural, muito ligada ao trabalho de Gonçalo Folgado, arquiteto.
O seu envolvimento começou ainda na Faculdade de Arquitetura, quando um grupo de estudantes decidiu olhar para o Bairro 2 de Maio como objeto de estudo – e de intervenção.
“O que nos ensinavam não correspondia ao território onde estávamos”, explica.
A partir daí, desenvolveram diagnósticos, candidaturas e projetos que deram origem a várias iniciativas no bairro. Os Amigos do B2M surgem também como continuidade desse trabalho.
Gonçalo Folgado, arquiteto, é fundador e presidente adjunto dos Amigos do B2M, vice-presidente da Rede DLBC e dirigente da Locals Approach. Foto: Líbia Florentino
Hoje, Gonçalo tem uma leitura clara do papel da cultura no projeto: não como programação, mas como forma de relação com o espaço. “Ressignificar o espaço público como lugar de encontro” é uma das ideias-chave e visa combater o estigma dos bairros municipais ou sociais, dizendo “aqui também há cultura”.
Isso traduz-se em práticas concretas: mapeamentos com os miúdos, identificação de “zonas quentes” e “zonas frias” do bairro, intervenções culturais em espaços pouco utilizados. A cultura, aqui, é também uma ferramenta de leitura e transformação do território.
Essa abordagem está a ser aprofundada no projeto mais recente, que tem como promotor a Locals Approach e será desenvolvido com vários parceiros, entre os quais os Amigos do B2M: o NÓS d’Ajuda, com financiamento do programa Bip/Zip.
Um mural no bairro 2 de Maio. Foto: Líbia Florentino
A ideia é simples, mas ambiciosa: ligar diferentes zonas da freguesia – Bairro 2 de Maio, Rio Seco e Casalinho da Ajuda, que funcionam muitas vezes de forma isolada – através de atividades culturais e comunitárias.
“Parece que estamos todos espartilhados… queremos colar isto tudo”, explica Sandra.
O projeto inclui mapeamento do território, recolha de dados, envolvimento da comunidade e desenvolvimento de intervenções culturais em espaços públicos.
Uma das linhas futuras passa por ocupar “zonas frias” com programação cultural: poesia, música, teatro, cinema ao ar livre. “Transformar o bairro num espaço cultural para todos” é o objetivo.






![A associação junta várias gerações em diversas atividades: dança, cajóns [instrumento de percussão], música, oficinas criativas, participação em festivais, idas ao teatro ou a museus. Foto: Líbia Florentino A associação junta várias gerações em diversas atividades: dança, cajóns [instrumento de percussão], música, oficinas criativas, participação em festivais, idas ao teatro ou a museus. Foto: Líbia Florentino](https://amigosb2m.com/wp-content/uploads/2026/03/nots6.jpg)


